sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Síndrome de Burnout


A dinâmica do mundo moderno favoreceu o aparecimento de muitas doenças e transtornos mentais, em especial no ambiente de trabalho. Para além da selva em que o mercado de trabalho se transformou e o esforço que cada um de nós tem que fazer para manter o seu emprego, a própria sociedade consumista que privilegia os cargos ou postos ocupados, acaba por avaliar os indivíduos pelas profissões que cada um possui.

O Síndrome de Burnout é um fenómeno psicossocial directamente relacionado com o mundo laboral e refere-se a uma reacção ao estado de exaustão e diminuição de interesse relativo ao trabalho, em que, o que a este diz respeito deixa de ter importância e qualquer esforço pessoal parece ser inútil. Trata-se de uma fadiga extrema que resulta de uma tensão emocional crónica associado a um período de esforço excessivo com intervalos demasiadamente curtos para recuperação. Burnout é um termo inglês: burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de stresse consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço. Alguns dos factores agregados ao Síndrome de Burnout podem ser dificuldades de relacionamento com chefes, colegas ou clientes, conflitos entre trabalho e família, pouca autonomia no desempenho profissional, sentimento de desqualificação ou de falta de cooperação em equipa. Esta síndrome é uma das consequências mais marcantes do stresse profissional e caracteriza-se não só por exaustão emocional, mas também por avaliação negativa de si mesmo, depressão e uma despersonalização que leva à insensibilidade com relação ao que o rodeia. Estes sintomas emocionais podem transformar-se em problemas físicos como fadiga crónica, dores de cabeça, insónias, úlceras gástricas, hipertensão arterial, taquicardia, arritmia, perda de peso, dores musculares e de coluna, alergias e lapsos de memória. E também em alterações dos hábitos: maior consumo de café, álcool e medicamentos, faltas no trabalho, impaciência, sentimentos de impotência, incapacidade de concentração e baixa tolerância à frustração. Em extremo podem ter comportamentos paranóicos tais como agressividade ou tentativas de suicidio. As pessoas que na sua vida têm profissões predominantemente relacionadas a um contacto interpessoal mais exigente, com frequentes e intensas interacções, emocionalmente densas, tais como médicos; enfermeiros; assistentes sociais; funcionários públicos, polícias ou bombeiros e todos os profissionais que interagem de forma activa com pessoas, que cuidam ou solucionam problemas das mesmas e de quem se espera uma atitude, no mínimo solidária, têm uma maior propensão a serem atingidas por este problema. Não há nada mais desgastante e consumidor de energia humana do que os conflitos, tanto internos como externos. Apesar disso, a solução não pode passar pelo isolamento e a evitação do contacto com os outros para prevenir conflitos, porque tal atitude pode causar o sentimento de solidão. As pessoas padecentes de Burnout são os chamados: excelentes funcionários. São pessoas extremamente dedicadas às instituições que representam, que fazem imensas horas extra para respeitar prazos, são pessoas altamente motivadas e exigentes consigo e com os outros, perfeccionistas e rígidas. No entanto estar envolvido em relacionamentos, tarefas e ambientes carregados de stresse por uma quantidade de tempo superior ao que cada um pode suportar ou consegue lidar pode transformar a pessoa em uma espécie de autómato. As características de humanização e ajuda vão decrescendo, revelando-se em demonstrações grosseiras e negativas para com as pessoas com quem lida no local de trabalho podendo estender-se ao contexto particular. O que acontece é que para não entrar em colapso a pessoa passa a agir automaticamente sem qualquer envolvimento emocional, o que resulta desastroso na produtividade e no clima organizacional. É importante perceber que Síndrome de Burnout não é o mesmo que depressão ou simples stresse. Enquanto nos depressivos percebe-se uma maior apatia e sentimentos de culpa e perda, quem sofre de Síndrome de Burnout caracteriza-se sobretudo por desapontamento, cansaço e tristeza, perfeitamente identificado e associados ao trabalho.

Como forma de contornar este problema há que, antes de mais, admitir que algo não está bem consigo mesmo, sobretudo se identifica vários dos sintomas aqui descritos e perceber que o problema ainda que tenha partido de outro/s passou a fazer parte de si. Assim deixam-se algumas sugestões de estratégias para lidar com o stresse: a) Realizar actividades de relaxamento; b) Organizar o tempo e decidir quais são as prioridades; c) Manter uma dieta equilibrada e fazer exercício físico; d) Discutir os problemas com os colegas de profissão; e) Promover acções de formação sobre gestão de conflitos.

Em casos extremos, aconselha-se a ajuda profissional.
 Sílvia Silva – Psicóloga Clínica

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Jovens violentos


A violência na adolescência é cada vez mais comum, tornando por isso também cada vez mais comuns as noticias quase diárias de crianças e adolescentes que sofrem ou sofreram bullying. A partir daí muito se tem dito, estudado e feito para perceber o bullying e as suas vítimas. O perfil das vítimas, os traumas que ficam, como lidar com as consequências dos que sofrem às mãos de adolescentes agressivos que para se exibirem ou se armarem em fortes transformam a vida de alguém sem se darem conta de tal.

Então e os agressores? Os tais jovens violentos que gozam, criticam, humilham, batem e magoam os outros… será que são menos vítimas?

Cientificamente consegue-se perceber que a agressividade está directamente ligada à imaturidade. Tanto à imaturidade física, no que diz respeito às estruturas do cérebro, como à imaturidade psicológica, no que diz respeito aos comportamentos e atitudes.

Dito de outro modo, sabemos que uma criança ou jovem que não foi exposto a desafios ou frustrações suficientes, não desenvolve estratégias de resolução de problemas. A super proteção familiar, a permissividade e a rápida cedência às exigências dos mais novos, fá-los acreditar que a vida é muito mais fácil do que os adultos querem fazê-los acreditar. Jovens que não sejam contrariados, que não pensem pela sua própria cabeça ou que não tenham consequências dos seus actos irreflectidos consideram que não têm que se esforçar, porque da maneira como agem a vida corre-lhes bem.

Este contexto contribui para a imaturidade psicológica, para a dificuldade em resolver problemas diários e até mesmo pequenos conflitos. A nível físico (da estrutura do cérebro) as células trabalham pouco e portanto não se desenvolvem. Quando a nível cerebral as estruturas são imaturas, perante uma adversidade, será difícil responder de forma madura e ponderada.

A nível social encontram-se ainda outras respostas para a agressividade nos jovens. A necessidade de se integrarem num grupo, de serem reconhecidos pelos seus pares e de eles próprios não serem uma vez mais excluídos (quando em grande parte dos casos o são no seu seio familiar) pode explicar este tipo de atitudes.

Se considerarmos que os jovens nos dias de hoje são mais imaturos a todos os níveis, porque os pais têm cada vez menos autoridade, estão cada vez mais frágeis, com maior dificuldade em contrariar, em dizer não e em exigir-lhes o cumprimento de tarefas simples, é natural que estes mesmos jovens tenham mais tendência para serem agressivos.

Para que essa agressividade seja clínicamente diagnosticada como uma patologia é necessário que o jovem responda a determinadas características ou critérios que serão avaliados pelo profissional (psicólogo clínico) em contexto terapêutico.

É no entanto muito importante compreender o histórico de vida desse jovem, perceber o seu contexto familiar e social para poder ir ao seu encontro.

Isto não invalida de modo algum que o jovem seja responsabilizado pelos seus actos, mas mais que o considerar como um caso perdido há que o ouvir e entender que quando um jovem agride, mais do que fazê-lo por maldade fá-lo na maioria das vezes porque sofre, porque não tem apoio, não tem mimo, não tem orientação e precisa de deitar cá para fora essa mágoa.

 

Sílvia Silva - Psicologa Clinica

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Fotografia




A memória é talvez das áreas do cérebro que mais determinam a personalidade. Aparentemente não terão tanta importância como a coordenação de movimentos ou a área de raciocínio matemático no entanto é a memória que nos permite armazenar conhecimento e evita que se repitam todas as aprendizagens. A cada dado novo, cada informação, contará como um acrescento à base já existente no cérebro e em conjunto com o já aprendido terá uma outra recepção e um outro entendimento. O cérebro funciona como as gavetas da cómoda lá de casa, as gavetas que menos utilizamos acabamos por esquece-las. Assim vejamos, quando guardamos roupas de inverno e passamos todo o verão sem as usar, quando começa novamente a fazer frio e vamos procurar o que guardamos hà tanto tempo, às vezes temos verdadeiras surpresas, como se nunca tivéssemos tido aqueles artigos, porque simplesmente nem nos lembramos. No entanto as peças que mais utilizamos, relógio de pulso por exemplo, parecem quase fazer parte de nós, nunca nos esquecemos e não passamos sem elas. São as situações mais vivas no nosso cérebro que determinam de algum modo a nossa personalidade.

As fotografias que tendemos a tirar sobretudo na infância recente dos nossos filhos, são ferramentas essenciais na construção do carácter dos mesmos. As lembranças gravadas nas fotografias contam histórias, a história de uma criança que à medida que cresce vai preenchendo as lacunas da memória com provas físicas (fotografias) da sua existência. A capacidade de memorização no ser humano dá-se desde a nascença, no entanto as primeiras memórias são tão ténues que só passam a efectivas quando constantemente estimuladas, seja com discursos relacionados ou com fotografias comprovativas daqueles momentos.

A imagem projectada numa fotografia diz muito do indivíduo. Não tendo palavras, a linguagem corporal ajuda-nos a identificar á posteriori que tipo de emoções e sentimentos estaríamos a experimentar no momento do clic. Ajuda-nos por isso a conhecermo-nos melhor a perceber o nosso percurso, a definir a nossa história. As fotografias são então importantes ao ponto de contribuir para a auto-estima, rever-se tem até o poder de alterar sentimentos, isso acontece quando estamos muito tristes e revemos fotografias de momentos muito alegres e simpáticos.

Quando vemos um álbum e não constam fotografias de uma determinada altura da vida, parece que temos um sentimento de vazio. O comprovativo do nosso percurso é sem dúvida fundamental para nos sentirmos mais confiantes e seguros, não só do que somos, mas do que vivemos e ajudou a definir a pessoa em que nos tornamos.

 
Sílvia Silva - Psicologa Clinica

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Filhos do divórcio


A tradição já não é o que era e as alterações que a sociedade vai sofrendo revelam-se também na constituição das famílias. As crianças filhas de pais separados deixaram de ser apontadas, tudo porque deixaram de ser “raras”. Hoje as famílias mono parentais representam uma faixa importante da população e uma em cada quatro crianças é filha de pais separados. Um número que podemos considerar fictício pois não contempla nenhuma união não civil. A questão é: quais as repercussões de tais mudanças? Por um lado estas metamorfoses vêm criar a necessidade de compensação parental, o que favorece um crescimento infantil num registo perfeitamente omnipotente. Situações de divórcio provocam nos pais sentimentos de culpa que despoletam a compensação material. Ou seja, perante uma evidente falha cometida pelos progenitores, no que se refere ao desmembramento da família, os pais tentam consertar esse “erro” com outro. A criança percebe e manipula de modo a atingir os seus mais breves caprichos. Sabe-se que a falta de coerência (inconstância de critérios); a falta de consistência (força infantil sobre a fraqueza parental, ainda que agora digam “não” perante a insistência da criança acabam por dizer “sim”) e a falta de continuidade parentais (ausência de postura educativa, que passa por períodos de firmeza intercalados com outros de permissividade) são propriedades fundamentais ao registo de patologia infantil. Com a desculpa de “para que não fiquem traumatizados” é-lhes cedido, permitido e oferecido tudo. A demissão dos pais enquanto educadores, optando pelo facilitismo, o que de alguma forma lhes diminui a culpa, pode repercutir-se num egocentrismo infantil, que gera uma espécie de pequenos ditadores sem regras, que não têm noção dos limites, a que os pais dizem não ter mão. Por outro lado a dificuldade dos adultos em aceitar um processo de separação pode fazer com que a criança passe a ser um joguete no meio da guerra que se cria. Provavelmente o mais doloroso para os filhos de um divórcio será terem de desistir de um dos pais dentro do seu coração e abdicar de uma parte de si mesmos. Nas lutas entre ex-conjuges é frequente a utilização e manipulação da criança para magoar o outro. Trata-se de Síndrome de Alienação Parental (S.A.P.) e é um transtorno pelo qual um progenitor transforma a consciência do seu filho, mediante vários ardis, com objectivo de impedir, ocultar e destruir os vínculos existentes com o outro progenitor, levando-o a ter apenas sentimentos negativos para com ele. Surge principalmente no contexto da disputa da guarda e custódia das crianças, e o seu promotor ou agente, o progenitor alienador, na maior parte dos casos, é o que tem a seu cargo a custódia legal dos filhos. Os estratagemas consistem em tentativas de minimizar o contacto com o outro, impedindo o contacto telefónico ou físico, na expectativa que a criança se desiluda, fique magoada e pense que o progenitor alienado não se preocupa com ela. Estas lavagens cerebrais pautadas por campanhas anti-ex-conjuge fomentam o desprezo e ódio da criança por um dos pais e pelo outro lado o medo de perda e dependência psicológica. Este tipo de posturas educativas: quer a compensação parental quer o S.A.P., provocam inúmeros transtornos e sequelas nas crianças. É importante reflectir e perceber que a vinda de um filho tem que ser associada a um projecto parental educativo e que este novo ser, é alguém muito importante e independente dos pais, que por eles deve ser encaminhado e amado e nunca utilizado em benefício próprio. Como diria Pedro Strecht um dos papéis mais importantes dos pais é o de ajudarem os filhos a crescer, mas para isso é preciso saber ser crescido.
Sílvia Silva - Psicologa Clínica



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

As crianças e as novas técnologias


Independentemente de se gostar muito ou pouco, o que é facto é que as antigas brincadeiras de miudos pertencem definitivamente ao passado. O jogar ao berlinde, à macaca, às escondidas ou à apanhada deixaram de fazer parte do quotidiano dos nossos filhos. A pouco e pouco a técnologia foi-se instalando e actualmente é impossivel dispensarmo-la. A televisão há muito que nos vicia a todos. E se inicialmente as crianças tinham pouco acesso porque nos lares havia quanto muito um aparelho, sobretudo destinado ao lazer dos mais velhos, agora não é raro que hajam pelo menos dois ou três televisores por casa, em que no minimo um se destina total e exclusivamente aos mais pequenos.

Os carros comandados, os pequenos jogos electronicos portateis ou os walkman’s seguiram-se nesta evolução sem no entanto criar a dependencia verificada hoje.

Os jogos de computador foram aparecendo e sendo inseridos no dia a dia dos mais pequenos. A densa e complexa máquina de marketing aliada à melhoria de condições económicas por parte dos pais, fez com que estes satisfizessem os caprichos dos filhos, criando assim um efeito de causa consequencia, justificado ainda pelo aumento de horas de trabalho nos empregos, principalmente para as mulheres que deixaram de acompanhar a educação das crianças a tempo inteiro, resultando na sua pouca disponibilidade e na necessidade de manterem as crianças ocupadas de uma forma agradavel, tranquilizando os pais por considerarem que, de alguma forma, as estavam a compensar.

A televisão, tal como os jogos de computador, não tem que ser, ou pelo menos não deve ser encarada como mau ou prejudicial. O que torna qualquer tecnologia pouco benéfica é o seu uso excessivo, que por um lado potencia sentimentos de agressividade, competição a qualquer custo e dificuldades de partilha e por outro inibe processamentos de pensamento, capacidade de criação, para além de aumentar o sedentarismo. Hoje sabe-se que a percentagem de sedentarismo relacionada com a utilização de tecnologias ronda os 73% nas crianças.

A responsabilidade de grande parte desta percentagem pode atribuir-se à internet.

A partir dos 6 anos, com a entrada no mundo escolar inicia-se também o interesse pelas tecnologias que permitam maior conhecimento. Uma vez mais não será a internet uma ameaça por si só, mas sim o que a ela está directa ou indirectamente ligado. É urgente que os pais enquanto educadores entendam que como em qualquer nova aventura, as crianças a podem viver mas sempre com acompanhamento e atenção. É preciso serem-lhes ensinados os limites, as regras e assim o controle que progressivamente poderão autonomamente adquirir. O tempo máximo de utilização, a forma como o fazem, o que podem e não podem, são itens intransponiveis. Se os pais estiverem por perto, para além de controlarem e ajudarem na navegação, podem igualmente participar jogando ou dando dicas. Quando esta tecnologia é utilizada como meio de estudo, pode ser efectivamente um auxiliar educativo de excelencia tanto na navegação, como sempre que são utilizados softwares educativos com incidencia por exemplo no desenvolvimento do raciocinio lógico-matemático.

Mas para isso é indispensavel que os pais se envolvam, estejam a par e percebam que funcionalidades e objectivos têm cada um dos brinquedos, jogos ou outros recursos tecnologicos que as crianças utilizem e sejam peça fundamental nessa selecção.

Alguns brinquedos, como por exemplo o tamagotchi, auferem à criança um sentido de responsabilidade, preocupação e controlo que lhes aumenta as potencialidades humanas. O facto das novas tecnologias poderem facilitar a comunicação e deitar por terra barreiras fisicas é um dos principais pontos positivos a elas relacionado, sobretudo se pensarmos nas crianças com deficiencias fisicas. A utilização das novas tecnologias permite-lhes estar e se sentir no mesmo patamar que as outras crianças oferecendo-lhes um novo sentimento de igualdade, e o serem estimuladas permite o aparecimento de outras potencialidades. Desta forma poderão aprender ao seu ritmo, contrariando um possivel insucesso escolar.

Principais riscos na internet:

Invasão de privacidade; Assédio e solicitações online; Cyberbullying; Sites agressivos ou de conteúdo inapropriado; Sites que incentivam o suicídio



Dicas para consultar:

Pais e Filhos na Internet –Um guia para uma navegação segura”; Links e Recursos propostos pela American Academy of Pediatrics; Growing Up Online

NetSmartz; Childnet International




Tenha também em conta que os dispositivos de bloqueio a sites ou temáticas indesejadas não são totalmente fiáveis, pois muitas vezes limitam informação inofensiva e não detectam a negativa. O melhor dispositivo de protecção é colocar o computador num local de passagem da casa, de maneira a que possa a qualquer momento verificar o que o seu filho está a fazer, devendo por isso passar regularmente por esse espaço. É completamente desaconselhado que o computador das crianças ou adolescentes esteja no quarto destes o que poderá impossibilitar os pais de o consultarem visualmente sempre que desejem.
Sílvia Silva - Psicologa Clínica

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

3ª idade: Razões para sorrir


De acordo com a Organização Mundial de Saúde é considerado idoso aquele que tem mais de sessenta e cinco anos, mas esta fronteira entre pré e pós idoso não é linear e, depende muito do estado de desenvolvimento do país em que se insere. Em Portugal a esperança de vida tem uma média de 78,1 anos distribuída por 75 anos para os homens e de 81,2 para as mulheres, um número algo elevado se tivermos em conta que a média geral mundial é de 67,2 anos. Certo é que, este número tem vindo a crescer com o progresso da sociedade em geral e essa é uma das razões porque hoje existe a maior taxa de idosos de sempre. Em Portugal atinge os 17%. O envelhecimento como processo natural no desenvolvimento de cada um de nós, traz a ele associado as mais diversas transformações e perca de recursos fisiológicos, doenças crónicas e várias limitações, sobretudo motivadas por questões psicológicas e sociais. Depois de uma longa vida activa, o mais comum é encontrar nas pessoas ditas velhas, tristeza e solidão. A sociedade actual continua despreparada na reintegração das pessoas que atingiram a terceira idade. Nomeadamente após se reformarem as pessoas ficam e sentem-se à deriva, sem saber o que fazer a partir dali. A disparidade entre uma vida de trabalho e dias inteiros sem qualquer actividade agendada e obrigatória causa uma descompensação que torna os mais velhos susceptíveis a patologias. Para tal contribui a rejeição e preconceito de uma população dita desenvolvida, onde só cabem os activos e com sucesso, e que mantém a crença de que a velhice torna as pessoas fracas e inúteis. É por isso urgente promover a inclusão social e garantir os direitos desses cidadãos, muitas vezes vítimas de violência não só física como psicológica. Depressão, ansiedade, problemas relacionados com dor, perturbações do sono, perda de independência e abordagem sistemática de assuntos ligados à morte, são frequentemente diagnosticados pelos psicólogos. A função dos terapeutas passa também pela avaliação de estados de demência e outras perturbações da memória e capacidade de desempenho de tarefas, para além de trabalharem com os familiares no sentido de um melhor entendimento da doença. Percebendo que a luta pela realização de um objectivo é na maioria das vezes mais estimulante que a efectivação do mesmo, perguntamo-nos que incentivo têm aqueles que consideram que o tempo útil para a realização de sonhos terminou. É importante que estabeleçam novos objectivos, em que um estilo de vida activa esteja presente, através de actividades que proporcionem sentimentos de prazer, de satisfação e divertimento como ginástica, dança, natação ou caminhada. As mais valias físicas passam pela manutenção dos reflexos, flexibilidade, mobilidade, melhoria da capacidade cardiorespiratória, conservação do equilíbrio e aumento da densidade óssea. Quanto aos benefícios psicológicos podemos destacar a diminuição da depressão e a melhoria da auto-estima, para os quais contribuem também actividades culturais, como assistir a espectáculos, visitas a museus, excursões ou até mesmo fazer voluntariado. Na terceira idade nada acaba, simplesmente muda. Assim também a sexualidade pode e deve continuar a fazer parte da vida dos mais “crescidos”, sobretudo se relembrarmos que sexualidade é muito mais que o acto sexual. Na terceira idade o importante é manter a independência e prevenir a incapacidade e especialmente garantir a qualidade de vida.
 
Sílvia Silva - Psicologa Clínica

O luto e as perdas




Todos nós, no percurso das nossas vidas, perdemos algo ou alguém, de que ou de quem gostamos muito. A vida é feita de afectos, de relacionamentos e de amores que, por vezes se iniciam despercebidamente, mas que, o tempo ou a intensidade determinam a força e solidez do elo que nos liga ao outro. Mas nem sempre manter esse amor é possível. Nem sempre manter esse relacionamento depende de nós. Às vezes as pessoas afastam-se, separam-se ou algum dos dois morre, deixando assim um espaço vazio, que nem sempre se está preparado para aceitar. Depois do afastamento dá-se o processo de luto, acompanhado de sensações de tristeza manifestadas através de choro ou apatia, apertos no peito, perca de apetite, ansiedade, cansaço e dificuldades em manter a qualidade do sono. O desenvolvimento deste processo tem uma duração média de dois anos no decorrer dos quais estes sintomas vão-se dissipando a pouco e pouco. Segundo Kubler Ross o luto passa por cinco fases distintas começando por uma reacção de negação, em que o individuo que perde o “objecto” do seu amor tem muita dificuldade em aceitar tal facto e se sente impelido a negar o mesmo, de forma inconscientemente infantil, retrocedendo no seu eu, ainda que momentaneamente, a um estado de necessidade de afastamento e de protecção do que está a acontecer. Nesta primeira fase em que a pessoa chega a afirmar não ser verdade o óbvio, dá-se muitas vezes o isolamento. Passada esta primeira reacção, despoleta a raiva ou fúria acompanhada por sentimentos de injustiça. O indivíduo nesta fase, embora já não negue os factos, começa a questionar o que se passa, tentando encontrar incongruências, falhas de lógica e a racionalizar os acontecimentos. Por exemplo: se eu gostava tanto daquela pessoa porque é que ela acabou comigo? Não faz sentido. Um outro exemplo diz respeito a situações de morte, sobretudo inesperadas: era tão novo não “merecia” morrer. De seguida começam as sessões de negociação, que por norma incluem Deus ou uma entidade superior: se fizeres com que ele volte para mim eu prometo que vou ser diferente, ou, se ela ficar curada eu nunca mais discuto ou lhe levanto a voz. Todas estas reacções sequenciais são consideradas dentro da norma, por serem identificadas na maioria das pessoas que passa por um processo de luto. Apesar de, à primeira vista parecerem pouco conscientes, servem como amortecedores ao grande impacto, como se fossem um abrir caminho, lentamente, à evidência. É necessário que primeiramente nos escudemos neste tipo de defesas, para nos prepararmos para algo que o nosso consciente ainda não elaborou e avalia como prematuro aceitar. Na fase seguinte o indivíduo entra em depressão. Começa a recordar a vida ao lado do ente querido perdido, tendo forte tendência para descriminar os maus momentos, sobrevalorizando os felizes, dando assim ao afastamento ou separação um carácter ainda mais trágico. É por norma nesta altura que sente mais necessidade em falar do que se está a passar consigo, do que sente e do sofrimento pelo qual está a passar. É importante ter alguém à sua volta com capacidade de escuta, pois se isso acontecer é uma forte ajuda para que o sujeito consiga ir resolvendo a questão dentro de si e arranjar estratégias de “sobrevivência”. É então que chega à quinta e ultima fase, a da aceitação. Nesta altura a pessoa já experimentou todo o tipo de sentimentos e reacções relacionadas com a separação do ser amado, já reajustou os seus objectivos e reprogramou a sua vida. Cabe-lhe perceber que a mudança externa deu-se independentemente da sua vontade e que lhe cabe iniciar as transformações internas necessárias, decorrentes da ausência do outro na sua vida.

Quando essa quebra na relação se dá a pouco e pouco, e o indivíduo se apercebe do inevitável, por exemplo num casamento onde as discussões são uma constante, ou se estivermos a falar de casos de doença prolongada e terminal, trata-se de duas situações em que por o afastamento não se dar bruscamente, as pessoas envolvidas vão-se preparando para o momento de separação. Vão elaborando essa situação, vão esperando pelo final, tentando perceber como vão ficar e reagir à vida, sem aquela pessoa com quem se habituaram a viver e a partilhar. Programam-se reajustes pessoais, profissionais e/ou familiares de modo a que o impacto da ausência de um elemento nas suas vidas seja o menor possível. Nessas circunstâncias é muito possível que se “saltem” fases do luto como por exemplo a negação, os sentimentos de injustiça ou as negociações. É esperado que a depressão aconteça de forma reactiva, dando depois lugar à aceitação. Existem no entanto outros casos em que o indivíduo, por razões específicas a si inerentes não consegue percorrer as fases ditas espectáveis e se demora excessivamente numa delas, por exemplo na fase de negação ou na fase depressiva, desenvolvendo assim um luto patológico. Nesses casos existe a necessidade de acompanhamento psicológico para que a pessoa consiga viver e resolver cada uma das etapas e passar à seguinte.

Sílvia Silva - Psicologa Clinica