A tradição já não é o que
era e as alterações que a sociedade vai sofrendo revelam-se também na
constituição das famílias. As crianças filhas de pais separados deixaram de ser
apontadas, tudo porque deixaram de ser “raras”. Hoje as famílias mono parentais
representam uma faixa importante da população e uma em cada quatro crianças é
filha de pais separados. Um número que podemos considerar fictício pois não
contempla nenhuma união não civil. A questão é: quais as repercussões de tais
mudanças? Por um lado estas metamorfoses vêm criar a necessidade de
compensação parental, o que favorece um crescimento infantil num registo
perfeitamente omnipotente. Situações de divórcio provocam nos pais sentimentos
de culpa que despoletam a compensação material. Ou seja, perante uma evidente
falha cometida pelos progenitores, no que se refere ao desmembramento da
família, os pais tentam consertar esse “erro” com outro. A criança percebe e manipula
de modo a atingir os seus mais breves caprichos. Sabe-se que a falta de coerência
(inconstância de critérios); a falta de consistência (força infantil sobre a
fraqueza parental, ainda que agora digam “não”
perante a insistência da criança acabam por dizer “sim”) e a falta de
continuidade parentais (ausência de postura
educativa, que passa por períodos de firmeza intercalados com outros de permissividade)
são propriedades fundamentais ao registo de patologia infantil. Com a desculpa de “para que não fiquem
traumatizados” é-lhes cedido, permitido e oferecido tudo. A demissão dos pais
enquanto educadores, optando pelo facilitismo, o que de alguma forma lhes
diminui a culpa, pode repercutir-se num egocentrismo infantil, que gera uma
espécie de pequenos ditadores sem regras, que não têm noção dos limites, a que
os pais dizem não ter mão. Por outro lado a dificuldade dos adultos em aceitar
um processo de separação pode fazer com que a criança passe a ser um joguete no
meio da guerra que se cria. Provavelmente o mais doloroso para os filhos de um
divórcio será terem de desistir de um dos pais dentro do seu coração e abdicar
de uma parte de si mesmos. Nas lutas entre ex-conjuges é frequente a utilização
e manipulação da criança para magoar o outro. Trata-se de Síndrome de Alienação Parental (S.A.P.) e é um transtorno pelo qual
um progenitor transforma a consciência do seu filho, mediante vários ardis, com
objectivo de impedir, ocultar e destruir os vínculos existentes com o outro
progenitor, levando-o a ter apenas sentimentos negativos para com ele. Surge principalmente
no contexto da disputa da guarda e custódia das crianças, e o seu promotor ou
agente, o progenitor alienador, na maior parte dos casos, é o que tem a seu
cargo a custódia legal dos filhos. Os estratagemas consistem em tentativas de
minimizar o contacto com o outro, impedindo o contacto telefónico ou físico, na
expectativa que a criança se desiluda, fique magoada e pense que o progenitor
alienado não se preocupa com ela. Estas lavagens cerebrais pautadas por
campanhas anti-ex-conjuge fomentam o desprezo e ódio da criança por um dos pais
e pelo outro lado o medo de perda e dependência psicológica. Este tipo de
posturas educativas: quer a compensação parental quer o S.A.P., provocam
inúmeros transtornos e sequelas nas crianças. É importante reflectir e perceber
que a vinda de um filho tem que ser associada a um projecto parental educativo
e que este novo ser, é alguém muito importante e independente dos pais, que por
eles deve ser encaminhado e amado e nunca utilizado em benefício próprio. Como
diria Pedro Strecht um dos papéis mais importantes dos pais é o de ajudarem os
filhos a crescer, mas para isso é preciso saber ser crescido.


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