sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Fotografia




A memória é talvez das áreas do cérebro que mais determinam a personalidade. Aparentemente não terão tanta importância como a coordenação de movimentos ou a área de raciocínio matemático no entanto é a memória que nos permite armazenar conhecimento e evita que se repitam todas as aprendizagens. A cada dado novo, cada informação, contará como um acrescento à base já existente no cérebro e em conjunto com o já aprendido terá uma outra recepção e um outro entendimento. O cérebro funciona como as gavetas da cómoda lá de casa, as gavetas que menos utilizamos acabamos por esquece-las. Assim vejamos, quando guardamos roupas de inverno e passamos todo o verão sem as usar, quando começa novamente a fazer frio e vamos procurar o que guardamos hà tanto tempo, às vezes temos verdadeiras surpresas, como se nunca tivéssemos tido aqueles artigos, porque simplesmente nem nos lembramos. No entanto as peças que mais utilizamos, relógio de pulso por exemplo, parecem quase fazer parte de nós, nunca nos esquecemos e não passamos sem elas. São as situações mais vivas no nosso cérebro que determinam de algum modo a nossa personalidade.

As fotografias que tendemos a tirar sobretudo na infância recente dos nossos filhos, são ferramentas essenciais na construção do carácter dos mesmos. As lembranças gravadas nas fotografias contam histórias, a história de uma criança que à medida que cresce vai preenchendo as lacunas da memória com provas físicas (fotografias) da sua existência. A capacidade de memorização no ser humano dá-se desde a nascença, no entanto as primeiras memórias são tão ténues que só passam a efectivas quando constantemente estimuladas, seja com discursos relacionados ou com fotografias comprovativas daqueles momentos.

A imagem projectada numa fotografia diz muito do indivíduo. Não tendo palavras, a linguagem corporal ajuda-nos a identificar á posteriori que tipo de emoções e sentimentos estaríamos a experimentar no momento do clic. Ajuda-nos por isso a conhecermo-nos melhor a perceber o nosso percurso, a definir a nossa história. As fotografias são então importantes ao ponto de contribuir para a auto-estima, rever-se tem até o poder de alterar sentimentos, isso acontece quando estamos muito tristes e revemos fotografias de momentos muito alegres e simpáticos.

Quando vemos um álbum e não constam fotografias de uma determinada altura da vida, parece que temos um sentimento de vazio. O comprovativo do nosso percurso é sem dúvida fundamental para nos sentirmos mais confiantes e seguros, não só do que somos, mas do que vivemos e ajudou a definir a pessoa em que nos tornamos.

 
Sílvia Silva - Psicologa Clinica

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Filhos do divórcio


A tradição já não é o que era e as alterações que a sociedade vai sofrendo revelam-se também na constituição das famílias. As crianças filhas de pais separados deixaram de ser apontadas, tudo porque deixaram de ser “raras”. Hoje as famílias mono parentais representam uma faixa importante da população e uma em cada quatro crianças é filha de pais separados. Um número que podemos considerar fictício pois não contempla nenhuma união não civil. A questão é: quais as repercussões de tais mudanças? Por um lado estas metamorfoses vêm criar a necessidade de compensação parental, o que favorece um crescimento infantil num registo perfeitamente omnipotente. Situações de divórcio provocam nos pais sentimentos de culpa que despoletam a compensação material. Ou seja, perante uma evidente falha cometida pelos progenitores, no que se refere ao desmembramento da família, os pais tentam consertar esse “erro” com outro. A criança percebe e manipula de modo a atingir os seus mais breves caprichos. Sabe-se que a falta de coerência (inconstância de critérios); a falta de consistência (força infantil sobre a fraqueza parental, ainda que agora digam “não” perante a insistência da criança acabam por dizer “sim”) e a falta de continuidade parentais (ausência de postura educativa, que passa por períodos de firmeza intercalados com outros de permissividade) são propriedades fundamentais ao registo de patologia infantil. Com a desculpa de “para que não fiquem traumatizados” é-lhes cedido, permitido e oferecido tudo. A demissão dos pais enquanto educadores, optando pelo facilitismo, o que de alguma forma lhes diminui a culpa, pode repercutir-se num egocentrismo infantil, que gera uma espécie de pequenos ditadores sem regras, que não têm noção dos limites, a que os pais dizem não ter mão. Por outro lado a dificuldade dos adultos em aceitar um processo de separação pode fazer com que a criança passe a ser um joguete no meio da guerra que se cria. Provavelmente o mais doloroso para os filhos de um divórcio será terem de desistir de um dos pais dentro do seu coração e abdicar de uma parte de si mesmos. Nas lutas entre ex-conjuges é frequente a utilização e manipulação da criança para magoar o outro. Trata-se de Síndrome de Alienação Parental (S.A.P.) e é um transtorno pelo qual um progenitor transforma a consciência do seu filho, mediante vários ardis, com objectivo de impedir, ocultar e destruir os vínculos existentes com o outro progenitor, levando-o a ter apenas sentimentos negativos para com ele. Surge principalmente no contexto da disputa da guarda e custódia das crianças, e o seu promotor ou agente, o progenitor alienador, na maior parte dos casos, é o que tem a seu cargo a custódia legal dos filhos. Os estratagemas consistem em tentativas de minimizar o contacto com o outro, impedindo o contacto telefónico ou físico, na expectativa que a criança se desiluda, fique magoada e pense que o progenitor alienado não se preocupa com ela. Estas lavagens cerebrais pautadas por campanhas anti-ex-conjuge fomentam o desprezo e ódio da criança por um dos pais e pelo outro lado o medo de perda e dependência psicológica. Este tipo de posturas educativas: quer a compensação parental quer o S.A.P., provocam inúmeros transtornos e sequelas nas crianças. É importante reflectir e perceber que a vinda de um filho tem que ser associada a um projecto parental educativo e que este novo ser, é alguém muito importante e independente dos pais, que por eles deve ser encaminhado e amado e nunca utilizado em benefício próprio. Como diria Pedro Strecht um dos papéis mais importantes dos pais é o de ajudarem os filhos a crescer, mas para isso é preciso saber ser crescido.
Sílvia Silva - Psicologa Clínica



quarta-feira, 30 de outubro de 2013

As crianças e as novas técnologias


Independentemente de se gostar muito ou pouco, o que é facto é que as antigas brincadeiras de miudos pertencem definitivamente ao passado. O jogar ao berlinde, à macaca, às escondidas ou à apanhada deixaram de fazer parte do quotidiano dos nossos filhos. A pouco e pouco a técnologia foi-se instalando e actualmente é impossivel dispensarmo-la. A televisão há muito que nos vicia a todos. E se inicialmente as crianças tinham pouco acesso porque nos lares havia quanto muito um aparelho, sobretudo destinado ao lazer dos mais velhos, agora não é raro que hajam pelo menos dois ou três televisores por casa, em que no minimo um se destina total e exclusivamente aos mais pequenos.

Os carros comandados, os pequenos jogos electronicos portateis ou os walkman’s seguiram-se nesta evolução sem no entanto criar a dependencia verificada hoje.

Os jogos de computador foram aparecendo e sendo inseridos no dia a dia dos mais pequenos. A densa e complexa máquina de marketing aliada à melhoria de condições económicas por parte dos pais, fez com que estes satisfizessem os caprichos dos filhos, criando assim um efeito de causa consequencia, justificado ainda pelo aumento de horas de trabalho nos empregos, principalmente para as mulheres que deixaram de acompanhar a educação das crianças a tempo inteiro, resultando na sua pouca disponibilidade e na necessidade de manterem as crianças ocupadas de uma forma agradavel, tranquilizando os pais por considerarem que, de alguma forma, as estavam a compensar.

A televisão, tal como os jogos de computador, não tem que ser, ou pelo menos não deve ser encarada como mau ou prejudicial. O que torna qualquer tecnologia pouco benéfica é o seu uso excessivo, que por um lado potencia sentimentos de agressividade, competição a qualquer custo e dificuldades de partilha e por outro inibe processamentos de pensamento, capacidade de criação, para além de aumentar o sedentarismo. Hoje sabe-se que a percentagem de sedentarismo relacionada com a utilização de tecnologias ronda os 73% nas crianças.

A responsabilidade de grande parte desta percentagem pode atribuir-se à internet.

A partir dos 6 anos, com a entrada no mundo escolar inicia-se também o interesse pelas tecnologias que permitam maior conhecimento. Uma vez mais não será a internet uma ameaça por si só, mas sim o que a ela está directa ou indirectamente ligado. É urgente que os pais enquanto educadores entendam que como em qualquer nova aventura, as crianças a podem viver mas sempre com acompanhamento e atenção. É preciso serem-lhes ensinados os limites, as regras e assim o controle que progressivamente poderão autonomamente adquirir. O tempo máximo de utilização, a forma como o fazem, o que podem e não podem, são itens intransponiveis. Se os pais estiverem por perto, para além de controlarem e ajudarem na navegação, podem igualmente participar jogando ou dando dicas. Quando esta tecnologia é utilizada como meio de estudo, pode ser efectivamente um auxiliar educativo de excelencia tanto na navegação, como sempre que são utilizados softwares educativos com incidencia por exemplo no desenvolvimento do raciocinio lógico-matemático.

Mas para isso é indispensavel que os pais se envolvam, estejam a par e percebam que funcionalidades e objectivos têm cada um dos brinquedos, jogos ou outros recursos tecnologicos que as crianças utilizem e sejam peça fundamental nessa selecção.

Alguns brinquedos, como por exemplo o tamagotchi, auferem à criança um sentido de responsabilidade, preocupação e controlo que lhes aumenta as potencialidades humanas. O facto das novas tecnologias poderem facilitar a comunicação e deitar por terra barreiras fisicas é um dos principais pontos positivos a elas relacionado, sobretudo se pensarmos nas crianças com deficiencias fisicas. A utilização das novas tecnologias permite-lhes estar e se sentir no mesmo patamar que as outras crianças oferecendo-lhes um novo sentimento de igualdade, e o serem estimuladas permite o aparecimento de outras potencialidades. Desta forma poderão aprender ao seu ritmo, contrariando um possivel insucesso escolar.

Principais riscos na internet:

Invasão de privacidade; Assédio e solicitações online; Cyberbullying; Sites agressivos ou de conteúdo inapropriado; Sites que incentivam o suicídio



Dicas para consultar:

Pais e Filhos na Internet –Um guia para uma navegação segura”; Links e Recursos propostos pela American Academy of Pediatrics; Growing Up Online

NetSmartz; Childnet International




Tenha também em conta que os dispositivos de bloqueio a sites ou temáticas indesejadas não são totalmente fiáveis, pois muitas vezes limitam informação inofensiva e não detectam a negativa. O melhor dispositivo de protecção é colocar o computador num local de passagem da casa, de maneira a que possa a qualquer momento verificar o que o seu filho está a fazer, devendo por isso passar regularmente por esse espaço. É completamente desaconselhado que o computador das crianças ou adolescentes esteja no quarto destes o que poderá impossibilitar os pais de o consultarem visualmente sempre que desejem.
Sílvia Silva - Psicologa Clínica

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

3ª idade: Razões para sorrir


De acordo com a Organização Mundial de Saúde é considerado idoso aquele que tem mais de sessenta e cinco anos, mas esta fronteira entre pré e pós idoso não é linear e, depende muito do estado de desenvolvimento do país em que se insere. Em Portugal a esperança de vida tem uma média de 78,1 anos distribuída por 75 anos para os homens e de 81,2 para as mulheres, um número algo elevado se tivermos em conta que a média geral mundial é de 67,2 anos. Certo é que, este número tem vindo a crescer com o progresso da sociedade em geral e essa é uma das razões porque hoje existe a maior taxa de idosos de sempre. Em Portugal atinge os 17%. O envelhecimento como processo natural no desenvolvimento de cada um de nós, traz a ele associado as mais diversas transformações e perca de recursos fisiológicos, doenças crónicas e várias limitações, sobretudo motivadas por questões psicológicas e sociais. Depois de uma longa vida activa, o mais comum é encontrar nas pessoas ditas velhas, tristeza e solidão. A sociedade actual continua despreparada na reintegração das pessoas que atingiram a terceira idade. Nomeadamente após se reformarem as pessoas ficam e sentem-se à deriva, sem saber o que fazer a partir dali. A disparidade entre uma vida de trabalho e dias inteiros sem qualquer actividade agendada e obrigatória causa uma descompensação que torna os mais velhos susceptíveis a patologias. Para tal contribui a rejeição e preconceito de uma população dita desenvolvida, onde só cabem os activos e com sucesso, e que mantém a crença de que a velhice torna as pessoas fracas e inúteis. É por isso urgente promover a inclusão social e garantir os direitos desses cidadãos, muitas vezes vítimas de violência não só física como psicológica. Depressão, ansiedade, problemas relacionados com dor, perturbações do sono, perda de independência e abordagem sistemática de assuntos ligados à morte, são frequentemente diagnosticados pelos psicólogos. A função dos terapeutas passa também pela avaliação de estados de demência e outras perturbações da memória e capacidade de desempenho de tarefas, para além de trabalharem com os familiares no sentido de um melhor entendimento da doença. Percebendo que a luta pela realização de um objectivo é na maioria das vezes mais estimulante que a efectivação do mesmo, perguntamo-nos que incentivo têm aqueles que consideram que o tempo útil para a realização de sonhos terminou. É importante que estabeleçam novos objectivos, em que um estilo de vida activa esteja presente, através de actividades que proporcionem sentimentos de prazer, de satisfação e divertimento como ginástica, dança, natação ou caminhada. As mais valias físicas passam pela manutenção dos reflexos, flexibilidade, mobilidade, melhoria da capacidade cardiorespiratória, conservação do equilíbrio e aumento da densidade óssea. Quanto aos benefícios psicológicos podemos destacar a diminuição da depressão e a melhoria da auto-estima, para os quais contribuem também actividades culturais, como assistir a espectáculos, visitas a museus, excursões ou até mesmo fazer voluntariado. Na terceira idade nada acaba, simplesmente muda. Assim também a sexualidade pode e deve continuar a fazer parte da vida dos mais “crescidos”, sobretudo se relembrarmos que sexualidade é muito mais que o acto sexual. Na terceira idade o importante é manter a independência e prevenir a incapacidade e especialmente garantir a qualidade de vida.
 
Sílvia Silva - Psicologa Clínica

O luto e as perdas




Todos nós, no percurso das nossas vidas, perdemos algo ou alguém, de que ou de quem gostamos muito. A vida é feita de afectos, de relacionamentos e de amores que, por vezes se iniciam despercebidamente, mas que, o tempo ou a intensidade determinam a força e solidez do elo que nos liga ao outro. Mas nem sempre manter esse amor é possível. Nem sempre manter esse relacionamento depende de nós. Às vezes as pessoas afastam-se, separam-se ou algum dos dois morre, deixando assim um espaço vazio, que nem sempre se está preparado para aceitar. Depois do afastamento dá-se o processo de luto, acompanhado de sensações de tristeza manifestadas através de choro ou apatia, apertos no peito, perca de apetite, ansiedade, cansaço e dificuldades em manter a qualidade do sono. O desenvolvimento deste processo tem uma duração média de dois anos no decorrer dos quais estes sintomas vão-se dissipando a pouco e pouco. Segundo Kubler Ross o luto passa por cinco fases distintas começando por uma reacção de negação, em que o individuo que perde o “objecto” do seu amor tem muita dificuldade em aceitar tal facto e se sente impelido a negar o mesmo, de forma inconscientemente infantil, retrocedendo no seu eu, ainda que momentaneamente, a um estado de necessidade de afastamento e de protecção do que está a acontecer. Nesta primeira fase em que a pessoa chega a afirmar não ser verdade o óbvio, dá-se muitas vezes o isolamento. Passada esta primeira reacção, despoleta a raiva ou fúria acompanhada por sentimentos de injustiça. O indivíduo nesta fase, embora já não negue os factos, começa a questionar o que se passa, tentando encontrar incongruências, falhas de lógica e a racionalizar os acontecimentos. Por exemplo: se eu gostava tanto daquela pessoa porque é que ela acabou comigo? Não faz sentido. Um outro exemplo diz respeito a situações de morte, sobretudo inesperadas: era tão novo não “merecia” morrer. De seguida começam as sessões de negociação, que por norma incluem Deus ou uma entidade superior: se fizeres com que ele volte para mim eu prometo que vou ser diferente, ou, se ela ficar curada eu nunca mais discuto ou lhe levanto a voz. Todas estas reacções sequenciais são consideradas dentro da norma, por serem identificadas na maioria das pessoas que passa por um processo de luto. Apesar de, à primeira vista parecerem pouco conscientes, servem como amortecedores ao grande impacto, como se fossem um abrir caminho, lentamente, à evidência. É necessário que primeiramente nos escudemos neste tipo de defesas, para nos prepararmos para algo que o nosso consciente ainda não elaborou e avalia como prematuro aceitar. Na fase seguinte o indivíduo entra em depressão. Começa a recordar a vida ao lado do ente querido perdido, tendo forte tendência para descriminar os maus momentos, sobrevalorizando os felizes, dando assim ao afastamento ou separação um carácter ainda mais trágico. É por norma nesta altura que sente mais necessidade em falar do que se está a passar consigo, do que sente e do sofrimento pelo qual está a passar. É importante ter alguém à sua volta com capacidade de escuta, pois se isso acontecer é uma forte ajuda para que o sujeito consiga ir resolvendo a questão dentro de si e arranjar estratégias de “sobrevivência”. É então que chega à quinta e ultima fase, a da aceitação. Nesta altura a pessoa já experimentou todo o tipo de sentimentos e reacções relacionadas com a separação do ser amado, já reajustou os seus objectivos e reprogramou a sua vida. Cabe-lhe perceber que a mudança externa deu-se independentemente da sua vontade e que lhe cabe iniciar as transformações internas necessárias, decorrentes da ausência do outro na sua vida.

Quando essa quebra na relação se dá a pouco e pouco, e o indivíduo se apercebe do inevitável, por exemplo num casamento onde as discussões são uma constante, ou se estivermos a falar de casos de doença prolongada e terminal, trata-se de duas situações em que por o afastamento não se dar bruscamente, as pessoas envolvidas vão-se preparando para o momento de separação. Vão elaborando essa situação, vão esperando pelo final, tentando perceber como vão ficar e reagir à vida, sem aquela pessoa com quem se habituaram a viver e a partilhar. Programam-se reajustes pessoais, profissionais e/ou familiares de modo a que o impacto da ausência de um elemento nas suas vidas seja o menor possível. Nessas circunstâncias é muito possível que se “saltem” fases do luto como por exemplo a negação, os sentimentos de injustiça ou as negociações. É esperado que a depressão aconteça de forma reactiva, dando depois lugar à aceitação. Existem no entanto outros casos em que o indivíduo, por razões específicas a si inerentes não consegue percorrer as fases ditas espectáveis e se demora excessivamente numa delas, por exemplo na fase de negação ou na fase depressiva, desenvolvendo assim um luto patológico. Nesses casos existe a necessidade de acompanhamento psicológico para que a pessoa consiga viver e resolver cada uma das etapas e passar à seguinte.

Sílvia Silva - Psicologa Clinica






sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Inicio escolar


Mais um ano escolar que deu início. As mesmas dúvidas de sempre, se os livros chegam a tempo, se este ano os filhos se vão aplicar mais, se se consegue comprar tudo sem dar um rombo no orçamento, se a turma dos nossos filhos será bem comportada, se os professores serão simpáticos e acessíveis… preocupações naturais para os pais. O que é facto é que para uma criança ter um desenvolvimento escolar normal, é preciso que reúna todas as condições não só físicas mas também psicológicas. A pré-disposição que levam para as aulas, sobretudo os mais pequenos que este ano se estrearam nestas andanças “dos grandes”, é fundamental e determinante. Quando os pais com a sua sabedoria e serenidade explicam a um filho que a escola é como uma arca onde se guardam os tesouros que eles com empenho irão conquistar, o mundo-escola não chega a ser um bicho-de-sete-cabeças. É sim encarado como um jogo, onde cumprindo as regras se pode ganhar. É um desafio em que cada novo amigo se torna num aliado desta viagem inconfundivelmente fascinante.

Sílvia Silva - Psicologa Clínica

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Terapia familiar


Este tipo de terapia surgiu na segunda metade do Séc. XX, apresentando-se como uma inovadora e poderosa ferramenta de auxilio a famílias com problemas funcionais.

O que distingue esta forma de tratamento de todas as outras é o facto de se considerar o problema como um todo, independentemente das partes. O quadro normal em famílias que procuram ajuda na terapia familiar é estas serem constituídas por elementos que na sua individualidade ou nas suas relações com os outros não apresentam queixas.

Quando juntos em ambiente familiar, os vários elementos acabam por se desentender, dando origem a situações de desconforto, de agressão psicológica, verbal ou física que resultam num conflito manifestamente desagradável. Situações de tristeza ou mau estar são também vulgares nestes quadros familiares. A principal questão é perceber que mesmo nas situações em que apenas um elemento se apresenta como “o problema” na maioria dos casos ele é apenas o sintoma da patologia dentro daquele sistema em especifico. Por exemplo um adolescente pode ter dificuldades de aprendizagem, desafio aos pais e/ou falta de respeito para com os mesmos e no entanto ser um jovem bem sucedido entre os pares e sem levantar problemas de maior nos vários contextos sociais de que faz parte. Uma análise ao funcionamento daquela família poderá mostrar inexistência de qualidade afectiva entre os pais e/ou destes para com o adolescente. Outro exemplo poderá ser uma situação depressiva num dos elementos do casal que acaba por implicar na dinâmica familiar com os filhos (desatenção, desinteresse, reacções agressivas), mas que resultou do afastamento do cônjuge por mau entendimento na intimidade sexual que este não soube resolver dentro do casal.

Parece-nos claro que, quando um indivíduo recorre a ajuda psicológica levado por um ambiente familiar hostil, o trabalho terapêutico terá um pequeno impacto uma vez que conseguirá quanto muito ajudar o paciente a lidar com a situação que ali o trouxe mas não a resolve-la. Quando o acompanhamento psicológico é com crianças, o psicólogo envolve, ou tenta envolver ao máximo os pais nesse processo de modificação de atitudes e processamento de informação. Também nestes casos, com crianças, na sua grande parte elas não passam de sintomas de problemas conjugais dos seus progenitores, ou outros problemas familiares.

Por isso mesmo o que a terapia familiar propõe é inverter os papéis: em vez de considerar o indivíduo com o seu problema e procurar perceber a família em que se inclui como forma contextual de inserção do mesmo, considera a família com o seu problema, procurando perceber os vários elementos que a constituem e que estarão na origem das situações que ali se apresentam. A abordagem diz-se sistémica por isso mesmo, porque o acompanhamento é feito em sistema de família deixando para segundo plano os sujeitos que dela fazem parte. Neste tipo de orientação considera-se que cada pessoa não pode ser vista isoladamente, mas sim inserida num sistema familiar e que todos os seus actos são resultantes da qualidade da engrenagem.

A terapia familiar está indicada aquando da necessidade de mudança de funcionamento da família. Assim entende-se que terapia familiar é toda a terapia que se aplica simultaneamente a mais que um elemento da mesma família e que, o resultado da mudança de um dos elementos irá implicar inevitavelmente nos outros elementos. Para tal é obviamente fulcral que os elementos implícitos na família sistémica se disponibilizem a fazer parte da terapia, com tudo o que esse processo entende.

Daí ser imprescindível definir o plano de tratamento e estabelecer com todos os intervenientes o ou os tipo(s) de acompanhamento que se irá(ão) efectuar. No decorrer do acompanhamento define-se se deve trabalhar com todos os elementos familiares em simultâneo, se só com uma parte ou se com um elemento individualmente.

Podemo-nos focar nos padrões de relacionamento da família, nas pessoas que constituem aquele sistema familiar de forma independente conjugando toda a informação a posteriori. Este tipo de terapia poderá ainda abranger elementos externos à família, como vizinhos ou amigos que façam parte da rotina familiar. Existem terapeutas que adoptam o método multi familiar, em que várias famílias integram a mesma sessão e são ouvidas, expondo situações semelhantes entre si.

Na terapia familiar outra das situações recorrentes é a terapia sexual ou conjugal. Quando um casal entra num processo de dificuldade de comunicação ou de sintonia na relação, não é raro optar por acompanhamento numa terapia que o ajudará a perceber o estado da relação. Fazendo o ponto da situação poderá projectar o futuro junto ou separado, mas sempre consciente do que mantêm em comum. Dentro da terapia conjugal conseguem perceber-se dificuldades a nível sexual como sintomática do detrioramento da relação, ou problemas no casal resultantes por exemplo de situações mal resolvidas na família mais alargada como com pais e sogros.

Também no intuito de minimizar os danos psicológicos do casal ou dos seus filhos, a crescente percentagem de divórcios leva a que se recorra cada vez mais a terapeutas familiares, para a resolução de disputas relativas à guarda dos filhos ou financeiras, o que levou à criação dos Mediadores Familiares.                                  

Sílvia Silva - Psicologa Clínica